sábado, 19 de maio de 2012

Rachel, tem um mouse no teu cabelo!/ Perucas Russas






com noventa ângulos dos cacos do meu coração de palhaça,
meu nariz era desocupado, aquoso, fugia ao meu torto rosto.
fiz que fui navio,
que era ilha com seguimentos para jocosas bolhas
onde nelas
seguimento para hilários girassóis
onde nesses
sementinhas duma nevada alegria.
nada.
entre o ouvido e o mega-fone do amestrador
(Chamo a Deus de amestrador. Péssimo numa função tão piedosa, quase chistosa.)
sequer uma risada cabal, sequer uma sensual havia.
e  morrer sem estar aqui. eu não quero morrer sem estar.
vou fugir.
estou fugindo, indo a caminho de implorar ao amestrador que me faça hiena entre elefantinhos recém nascidos.
(Ou gorda equilibrista numa corda de sebo.)
ah. vai ser uma festa.





quinta-feira, 10 de maio de 2012

Pra doer bem criava Kahlo./ Self-Portrait with Cropped Hair




Tem essa montanha. Muito íngrime. Essa montanha toda.
Tem, no pico da montanha, essa tulipa da cor do sol no dia dos mortos: vermelhíssima, doída, rija.
Tem esse negro leão. Ele alcança, cheira e cheira, colhe, descuidado, a tulipa e a devora num só bocejo.
E essa é a verdadeira história minha.
O leão é minha tola e sonolenta audácia
 da qual estou sempre a podar a juba.
Eu, bem, o bem é que eu sou a montanha.
A tulipa é a canção que eu desbotaria sobre este quadro feio.




  ¬Frida Kahlo, Self-Portrait with Cropped Hair¬


se te quise,
ahora que estás pelona,
se te quise y se te quise y
por el pelo,
se te quise,
fué por el pelo.




segunda-feira, 9 de abril de 2012

Amedeo, tem gente olhando!/ Homem com Barba




Chegamos ao fim do dia.
Parece. Eu, o dia.
E teias lembram a teias duma aranha de outra década, teias no canto, na quina do dia.
Retomo meu corpo após uns tantos. Um corpo, o meu, um outro, esse meu. Parece.
Encaixo fios da barba entre as estrias do branco, as estrias do quarto, uma falha no papel, olho a cama, parece.
Sei que posso me coçar. Eu, podendo me coçar e parecem fios de aço, duma ponte de outra cidade, bordados na cortina da janela do fim do dia. E luzes. Teias delas.
Chegaremos ao fim da cama, da noite?
Encaixo fios de resignação entre as estrias da pergunta que, há pouco, era corpo de espera, há tanto, esse meu.
Lembro-me vagamente e com saudade do quando podia me coçar.
Eu, de noite, um dia.



¬Homem com Barba, 1918, de Amedeo Modigliani, tinta sobre papel¬

quarta-feira, 21 de março de 2012

Amedeo, tem gente olhando!/ Retrato de Lunia Czechowska





Começa que um bocado de gelo desprende-se da calota polar
Ou
Começa que perdem-se teus brincos e a agulha de marfim que prendia a margarida de seda ao teu abstêmio penteado
Justo quando
E só então
Um bocado de gelo desprende-se da calota polar
      (//)
Pudesse agasalhar com sentidos a ordem das tuas narinas
      (//)
Soubesse lançar ordem a todos os sentidos do teu ao nosso perfil.



¬Retrato de Lunia Czechowska, 1919, de Amedeo Modigliani¬

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Mãe, o Páblo crebou as janela!/ Bather Opening a Cabin





E outra vez
E mais esta
Não a morte
Nem a má notícia
Vem
A dourada idéia
Aos lustrosos cascos
Abrir-se junto à porta.



  ¬Pablo Picasso, Bather Opening a Cabin¬

sábado, 21 de janeiro de 2012

Mãe, o Páblo crebou as janela!/ Girl in a Chemise



Esquisita melopéia marcial a fluir marchas a óleo, digamos, a correr nua, violenta
a frouxa boca da madrugada nos poucos copos
que comemoram, atordoados,
o instante irascível da névoa indo desarmar
tua blusa, teu torto perfil, teu cabelo estatuado a guerrilhas de luas e marés.


 ¬Pablo Picasso, Girl in a Chemise¬

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Oh, não! Era a do livro, Gogh!/ Peasant Woman near the Hearth




Suja e
quis abrir os olhos.
O lume de apenas o escalpo dum todo, esse, como que retrato a carvão ou a óleo lembrando a carvão.
A noite estava lá
num anonimato que tornava a vida do pouco fogo em quase lavradorinha de descansos, pequenino amanhecer de batatas frias, imundas.
Diz-se que
ela quis abrir os olhos.
Ela quereria abrir os olhos, esboçar a franca idéia de bicho diabólico ascendendo ao tanto.
E voltou a querer abrir os olhos e voltou a querer
abrir, cortar segredos sobre as batatas.
Sujas, cegas, mansas que eram. Quereriam.




 ¬Vincent van Gogh, Peasant Woman near the Hearth¬ 

sábado, 7 de janeiro de 2012

Pra doer bem criava Kahlo./ What I saw in the water




e ser
a lagarta na água
sob o lento ecoar da seca libertação
e o que segue-se ao banho não acode
a vida a soçobrar-se líquida, dissolvendo asas, efeitos
e não ser a borboleta de galochas após o ralo
e não ter do exílio as largas bolhas
OU ANDAS OU TREPAS OU VOAS.



¬Frida Kahlo, What I saw in the water¬

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Oh, não! Era a do livro, Gogh!/ Vincent's Chair with Pipe




Um tanto em palha
todo o império de agora
e entretanto, todo o ruído do mar entretanto
de frente, por fora, voam rostos, queixos gastos
colam-se às janelas, entre os dentes,
umas grades a pontear a prosa
donde o presidiário vibra
enrola-se nos lençóis
então enrije um tanto de pau ao enforcado patíbulo calçado, ordinária armadilha do tempo, orelha do arado vento:
a cadeira do fumo de tanto,
a cadeira de um todo auditório convento.



¬Vincent van Gogh, Vincent's Chair with Pipe¬ 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Mãe, o Páblo crebou as janela!/ Woman at a Window





Coitada
Meu Deus, coitada
Vestida à errada
Esgotando moleiros risos
Dedilhando a música dos insetos de fora
Dos insetos maquiados do tempo indo teu reflexo
O que a ti te condiz linda, linda,
Coitada, errada, emoldurada de então
Tendendo a pálpebras emocionadas
Ornando a broches de sardinhas enlatadas
Apropriada a pão.



     ¬Pablo Picasso, Woman at a Window ¬

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Mãe, o Páblo crebou as janela!/ Garçon à la Pipe




não vá trincar da vida, amigo, não vá
antes
senta-te a pitar
do conforto
do pijama de sonhar
flores mais amenas em papel-de-parede d’óleo
óleo de untar os desusos santos
cachimbadas, por exemplo
minha deixa, tua cara cumulada
teu cachimbo, teu varão
óleo
antes
bem antes
e só então
vá trincar da vida, irmão



                      ¬Pablo Picasso, Garçon à la Pipe¬

sábado, 26 de novembro de 2011

Mãe, o Páblo crebou as janela!/ Wounded Bird and Cat





Picasso ria-se aos coices quando soube de que dera o nome errado ao quadro, que lastima, que gracinha de lastima, pois que devia era ter chamado ao quadro de DESEMBUCHADO PÁSSARO LUNAR NA BOCA DO GATO GRÁVIDO DO PLANETA TERRA, que coisa, mais que coisa e ria-se tanto, aos coices.








¬Pablo Picasso, Wounded Bird and Cat¬

sábado, 5 de novembro de 2011

Mãe, o Páblo crebou as janela!/ Child With Pigeon




sem piscar:
o ponto dum branco central
sei
inda aqui é possível ver
nó de quem atenta
inda ver
das penas nas coisas sem asas
das asas na coisas que penam
sem piscar: esganar a pomba a tingir dos dedos a vida.





¬Pablo Picasso, Child With Pigeon¬

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Amedeo, tem gente olhando!/ Retrato de Diego Rivera




à que
da bondade aqui
é de se repensar ao que
em vir a ter sobre a carne o sebo e o sebo em que
e vir a ter
víceras à que víceras
em que vir a ter pele e o tratado de peles a cobrir de explosivas colinas, colossais ternuras?
em que, a divina bondade aqui, soberbo amigo? à que?
à que sempre da tórrida leveza
à que lembrarás
a esse pássaro chinês pousado a boas horas, pausado em gordas heras.






¬Amedeo Modigliani, Retrato de Diego Rivera, 1914¬

sábado, 8 de outubro de 2011

Amedeo, tem gente olhando!/ Nudo Dolente



¬Amedeo Modigliani, Nudo Dolente, 1908¬



nessa patacada, quis Amedeo pernoitar do macho
um infinitamente ganancioso deter-o-mundo-curvo.
decidiu-se por mordiscar de pêlos a suposta rapariga
disfarçar-lhe o estandarte riso esfumando ângulos duns apetitosos modos e poses da mais difícil arte que é
um suposto homem apaixonar-se a si sem ferir ou murchar as inclusas paisagens fêmeas ou simples assim: pintar o ganancioso prever-o-mundo-curvo infinitamente macho.
e o que padece é o seguinte: Oxalá, Amedeo nunca soube supor e em nem supondo, pintara ali um Herodes dado a Salomé, inda assinara sua própria cabeça de gênio dado a João Batista. verdadeira patacada da dolente arte de Modigliani.



¬Amedeo Modigliani, Nudo Dolente, dolente detalhe, parece.¬

sábado, 24 de setembro de 2011

Amedeo, tem gente olhando!/ Mulher Nua com Chapéu




seguem noturnas as mãos abaixo
o teu rosto
tão quão abaixo
fazem-no pequena cidade
de avessos senhores
dão-se as pálpebras
abaixo passas a retirar-te do chapéu
crianças do teu olhar
amolam baças chamas
tremulam tuas vidraças
seguem as mãos
baça a correção no movimento que
agora nevas
apagam-se umas vielas, nevas
esburgada montanha abaixo
seguem as mãos
cobrem-se em flocos as barbatanas a te seqüenciar
abaixo
agora é o inverno que teima a queimar
fazendo-te pequeno ramo abaixo
pesas e tocas da última janela, tua então finada cidade
seguem as naus, tuas mãos, seguem




¬Amedeo Modigliani, Mulher Nua com Chapéu, 1907/1908¬

sábado, 10 de setembro de 2011

Amedeo, tem gente olhando!/ Paisagem

tomba ao branco as hastes do nada, janelas do nada, nada ao chão. não.
não deixe de tombar as hastes do nada.
nada sem horário, rostos ou cheiro.
da paisagem precisa o nada.
que de nada, sem oco, nada sem dimensão, nada afim, nada a paisagem, para o nada, assim, parecida com o nada, como se ao branco tombasse um nada do princípio, nada a se manchar do fim.





¬Amedeo Modigliani, Paisagem, 1919¬

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Amedeo, tem gente olhando!/ Rapariga de Tranças





é clara
a imensa força trançando modos em me perder
e é derivada da totalidade bruta desse querer me pender em tranças, arqueando probo, bronco, amásio, porém
como que escorregando o cabelo da menina abandonada ao último assento do imaginário trem
trançado no ar
menina noir
beicinho-sapiém
cumprindo com os nós dos dedos a função das ânsias nas forças de cada nó amolecendo trilhos, emaranhando heras e eras nas cores dum vago réquiem.





¬Amedeo Modigliani, Rapariga de Tranças, 1918¬

sábado, 20 de agosto de 2011

Amedeo, tem gente olhando!/ Cabeça de Rapariga

dava-se que uma sede horrível levava-o a cozinha sempre no mesmo horário da madrugada. inda levaram-se anos antes que a sede atacasse por pouco mais de amanhecer e por tão mais que água quando Modigliani retratou a Cabeça de Rapariga e não um abajur de duvidoso bom-gosto flutuando no fundo escuro daquele imenso corredor daquela sede barregã.


¬ Amedeo Modigliani, Cabeça de Rapariga, 1908 ¬



¬ Amedeo Modigliani, Cabeça de Rapariga/detalhe ¬




























¬ VersãoMinhaOBVIAMENTEParaCinzeiro, Cabeça de Rapariga, 2009, detalhe e detalhe, parece. ¬

domingo, 14 de agosto de 2011

Amedeo, tem gente olhando!/ Retrato de Jean Cocteau



telhas com libertinos abelheiros fundam teus olhos quando não vês.
- e ele cruza as mãos, bardas pombas sobre o colo e respira feito morsa multifacetada ao sol, bardo urso que é. -




¬ Amedeo Modigliani, Retrato de Jean Cocteau, 1916 ¬







¬ Amedeo Modigliani, Retrato de Jean Cocteau/detalhe, 1916 ¬

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Amedeo, tem gente olhando!/ Jeanne Hébuterne de Colar

sem te abraçar Agora é tarde, colar
Agora é tão tarde sobre a noite que me cessa
da planície que nos reza, colar
agora é muito tarde para ser um que retesa
no olho direito, sobre a testa,
um que pergunta, outro que contesta, agora é como que andar
ando andando, sempre andei, mas ando agora como nunca
olha a minha canela, brilha quando é tarde
minha coroa brilha levando um feixe da canela
sinta, toque da palma o que me contesta como a pergunta
ando, ando como anda a pergunta.
sinta: será tarde para um passeio dessas palmas, um passeio, um colar?



¬ Amedeo Modigliani, Jeanne Hébuterne au Collier, 1917¬

domingo, 24 de julho de 2011

Amedeo, tem gente olhando!/ Jeanne Hébuterne de pullover

despedaço-me entre fios do teu olhar
quando é tão breve a pausa entre os dentes
veto as mãos
são pequenas línguas de te lamber os idiomas
aos pedacinhos estou
para atraírem pedaços aos pedaços de alguma tua atenção
escandalosamente, não saio do lugar.
Por isso, o que cresce passa
E colado à essa imobilidade, fico, fito-te ao alcance ósseo, amor.




¬ Amedeo Modigliani, Jeanne Hébuterne de pullover, 1918¬